“A maioria das empresas não dispõe de soluções de seguros suficientes para responder a eventos extremos”
A recente passagem da depressão Kristin por Portugal trouxe à tona as fragilidades do mercado de seguros e a insuficiência das soluções existentes para proteger contra fenómenos climáticos extremos. Luís Costa, Head of Technical Lines & Complex Claims da Verlingue Portugal, , em entrevista à Executive Digest, sublinha que, embora as empresas portuguesas tenham evoluído no reconhecimento do seguro como ferramenta de gestão de risco, as apólices ainda são inadequadas, especialmente no que diz respeito à cobertura de danos causados por tempestades e outros eventos climáticos severos.
A tempestade Kristin causou danos significativos, principalmente em edifícios e veículos, como destelhamentos, quedas de estruturas e infiltrações de água. Empresas e proprietários de habitação, especialmente aqueles no setor de comércio, restauração e armazenagem, foram severamente impactados. As apólices de seguros Multirriscos foram acionadas, cobrindo danos causados por vento e chuva, incluindo prejuízos em conteúdos e avarias elétricas.
A Falta de Conhecimento e as Deficiências nas Coberturas
Apesar da evolução na cultura de gestão de risco nas empresas portuguesas, a literacia em seguros continua a ser uma lacuna significativa. Luís Costa destaca que, embora muitas empresas possuam coberturas adequadas para sinistros de menor gravidade, falham na proteção contra eventos extremos, como tempestades. A falta de adequação das apólices às necessidades reais das empresas e o subseguro, como por exemplo, apólices com capitais desajustados ou coberturas insuficientes para fenómenos naturais, são problemas recorrentes no setor.
O Desafio das Exclusões e Sublimites no Mercado de Seguros
No contexto da tempestade Kristin, uma das principais questões levantadas é a falta de uniformidade nas exclusões e limitações nas apólices de seguros para fenómenos naturais. Embora não haja um padrão único, todos os seguradores excluem danos causados por fenómenos correntes, com as soluções voltadas principalmente para eventos extremos. As exclusões mais comuns incluem falhas de impermeabilização, danos em bens móveis ao ar livre, danos em estruturas ligeiras (como vedações) e danos causados por ventos ou precipitação abaixo dos valores estipulados na apólice.
Além disso, a exposição ao risco de fenómenos naturais é fortemente dependente da localização geográfica, com áreas mais vulneráveis como leitos de cheia, zonas costeiras e ribeirinhas frequentemente enfrentando dificuldades na obtenção de cobertura. Isso contrasta com setores como o têxtil e químico, que enfrentam mais restrições devido ao alto risco de incêndio, e não por causa dos riscos climáticos.
A Necessidade de Consultoria Técnica Adequada e Estruturação de Apólices
A subproteção observada em muitos casos de sinistros, incluindo os causados pela tempestade Kristin, não se deve à falta de soluções no mercado, mas sim à falta de consultoria técnica adequada. Segundo Luís Costa, a falha ocorre na estruturação inicial do contrato de seguro, com apólices mal ajustadas à real exposição ao risco. Para que um seguro tenha sucesso enquanto ferramenta de gestão de risco, é crucial que seja desenhado para cobrir eventos com grande potencial de perdas.
Os Efeitos Indiretos das Tempestades e a Resposta do Mercado
Além dos danos materiais diretos, os eventos climáticos também podem gerar perdas financeiras significativas, como perda de faturação, aumento de custos e danos reputacionais.
O mercado segurador já oferece algumas soluções para mitigar esses efeitos indiretos, mas a sua eficácia depende do conhecimento técnico especializado, da análise detalhada das finanças das empresas e da capacidade de estruturar soluções personalizadas, muitas vezes além das abordagens convencionais.
O Seguro como Ferramenta de Gestão de Risco: A Evolução da Mentalidade Empresarial e as Perspetivas de Futuro
Embora muitos gestores já vejam o seguro como uma ferramenta estratégica de gestão de risco, ainda existe um grande número de empresas que o percebem apenas como uma imposição contratual ou um custo. A compreensão de que o seguro pode ser usado para transferir riscos e como parte de uma estratégia de mitigação ainda não é amplamente adotada.
Apesar das dificuldades enfrentadas pelo setor, o mercado segurador português está bem preparado financeiramente, sustentado por mercados de resseguro sólidos e com um histórico de resposta consistente. No entanto, Luís Costa destaca que o setor está em transição, movendo-se de modelos baseados em dados históricos para abordagens mais dinâmicas e prospetivas, que permitem uma avaliação de risco mais precisa. A crescente exigência por informações detalhadas dos segurados exige profissionais altamente qualificados para identificar riscos adequadamente, propor medidas de mitigação e alinhar os riscos com as expectativas do mercado.
Com a possibilidade de eventos climáticos extremos se tornarem mais frequentes, será necessário repensar os prémios de seguros e as coberturas oferecidas. O aumento da frequência e gravidade dos sinistros pode levar os seguradores a reavaliar as suas estratégias, resultando em prémios mais altos, redução de limites, maiores exigências técnicas e outras modificações nas apólices. Essas medidas são essenciais para garantir a estabilidade financeira do setor segurador.
Canal dedicado para a gestão dos sinistros associados a este evento
A Verlingue está a acompanhar de perto a evolução da situação no terreno, em permanente articulação com os seus Clientes, com o compromisso claro de prestar apoio efetivo, próximo e atento às necessidades reais de cada caso.
Neste contexto, disponibilizámos um canal dedicado para a gestão dos sinistros associados a este evento: ajuda@verlingue.pt
Se a sua empresa ou património tiver sofrido danos, pedimos que nos envie a participação com a seguinte informação:
- Identificação fiscal (NIF);
- N.º da apólice, sempre que possível;
- Enquadramento e descrição dos prejuízos verificados;
- Registos fotográficos e/ou vídeo;
- Orçamentos, estimativas e relação dos bens afetados, sempre que aplicável.
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Nota importante: os anexos enviados por email podem exceder facilmente os 10MB, o que poderá impedir a correta receção da mensagem. Sempre que necessário, recomendamos a utilização de links de partilha (ex.: WeTransfer , OneDrive ou similar).
Recomendações importantes
Para uma gestão mais eficaz do processo, aconselhamos ainda:
- Garantir, em primeiro lugar, a segurança de pessoas e bens, cumprindo as indicações da Proteção Civil e das autoridades competentes;
- Documentar todos os danos antes de qualquer intervenção;
- Implementar medidas preventivas que evitem o agravamento dos prejuízos, conservando os comprovativos das despesas realizadas.
- Evitar o descarte ou substituição de bens danificados sem validação prévia, sempre que possível, de forma a salvaguardar a correta avaliação pericial.